Peixe-seco

A prova da existência, ainda pelos estendais de Peniche, de peixe a secar, das raias, do carapau e do tão apreciado quelme, é a prova viva desta tradição milenar que ainda teima em persistir. Uma moda que há uns anos a esta parte parece ser viral no panorama cultural do nosso país, e a meu ver, ainda bem. No conjunto das possibilidades patrimoniais de se elevar um património a uma categoria classificativa, é disparatada esta ideia de se considerar o peixe-seco como património integrante da cultura de Peniche? Penso que não. A história do sal e da sua importância na conservação nos alimentos e principalmente no pescado, está evidente, bem como evidente é a continuação nas tradições locais, na produção de um produto tão típico de Peniche. O sal e o seu uso para conservação de pescado, passou de ser uma acção desprestigiada e corriqueira, sem muito valor como produto obtido, para nos dias de hoje ser uma actividade exercida de maneira menos contínua, e onde as técnicas são diversas, como diversas são as espécies hoje em dia salgadas e secas. De facto o salgar e depois secar, é um trabalho tradicional, que produz um produto único e apreciado pelos locais, pelos emigrantes e já adere um grupo crescente de novos apreciadores. Então repensar, tendo em conta todas estas evidências cronológicas relacionadas com a conservação e principalmente o uso do sal como agente conservador, num produto típico e ainda persistente na economia penichense como o peixe-seco, não é de algum modo caricato. 10830470_1586490534900330_1348763620367491952_o O peixe-seco é um dos produtos que ainda sobrevive desta tradição milenar do uso do sal como elemento de conservação, muitos outros existiriam em variadíssimas épocas desta tradição de salgar para conservar, mas perderam-se as técnicas e o gosto alimentar por tais acepipes. A sardinha de estiva, ou o biqueirão salgado, são o exemplo desses produtos tão apreciados não há muito tempo, mas que hoje em dia não são produzidos, sendo o peixe-seco o derradeiro sobrevivente dessa conservação de pescado onde o sal era rei, o ouro branco de tantos e a subsistência de muitos. O peixe-seco é apenas hoje uma amostra mais tradicionalista dessa importância do sal, e o vestígio de milénios de uso e evolução da técnica de conservar alimentos.