Ponta do Trovão

A península de Peniche, em termos geológicos, mostra uma sucessão de estratos de rochas sedimentares carbonatadas de idade jurássica, registando, de forma contínua e ímpar, cerca de 20 milhões de anos da história geológica portuguesa. A partir dos estudos no estratotipo de Peniche concluiu-se que no jurássico inferior a Península Ibérica era uma ilha e que as zonas das cidades como Coimbra, Lisboa e Peniche eram mar, só existindo ambiente marinho. Constitui, assim, o melhor registo em Portugal de rochas daquela idade, relacionadas com uma fase marinha iniciada à volta dos 190 milhões de anos, anterior à génese do oceano Atlântico. A Ponta do Trovão localiza-se na zona Norte da península de Peniche e destaca-se na fisiografia desta pois projecta-se através de uma “ponta” rochosa, ladeada por uma pequena enseada que forma uma praia em “U”, a Praia do Abalo. O local apresenta um interesse patrimonial de valor científico excepcional no contexto nacional e internacional pois é o local que apresenta o melhor registo geológico do mundo para o intervalo de tempo do período do jurássico inferior, ou seja, o melhor registo a nível mundial da transição entre os intervalos de tempo Pliensbachiano-Toarciano (andares do Jurássico) (figura 1) cujo estrato-tipo de limite (GSSP, Global Stratotype Section and Point) (figura 2) foi proposto (e recentemente aprovado) à Subcomissão Internacional de Estratigrafia do Jurássico, sobretudo devido a estudos de biostratigrafia de amonites (figura 3). Ponta do Trov+úo Figura 1 – Ponta do Trovão e Praia do Abalo. A linha a tracejado marca a posição da base do Toarciano, que se tornou GSSP daquele andar.   tabela crono Figura 2 – Tabela cronoestratigráfica internacional. A vermelho, a posição dos andares do Jurássico presentes na Ponta do Trovão (fonte: www.geologypage.com201503international-chronostratigraphic-chart.htm)   Ponta do Trovão_Amonites Figura 3 – Fóssil de uma das amonites que se pode encontrar na Ponta do Trovão.   Por outro lado, o registo sedimentar testemunha alterações da interacção atmosfera-oceano, durante o Toarciano inferior, que terá dado origem a uma extinção em massa de algumas espécies marinhas, como as Belemnites, animais carnívoros que possuíam um corpo suave ao redor de uma concha interna (rostrum), viviam na água e eram muito semelhantes às lulas actuais (figura 4). Ponta do Trovão-Belemnites Figura 4 – Esquema de uma Belemnite e alguns fósseis das suas conchas internas presentes na Ponta do Trovão.   Além disso, na Praia do Abalo, podem observar-se níveis siliciclásticos gresosos e microconglomerados de feldspato rosa, quartzo e micas, envolvidos por cimento carbonatado; estas subarcoses testemunham uma deposição de natureza gravítica, tida como consequência do soerguimento das Berlengas, conferindo ao local elevado valor pedagógico, pois permite a percepção da interacção entre sistemas geológicos diferentes e a sua riqueza em fósseis, que vem sendo delapidada por colectores anónimos de fósseis, confere-lhe valor pedagógico acrescido.